Aula para estudantes de Medicina na UFCSPA - Porto Alegre/RS - Brasil
Local
Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.
Centro de Ensino
Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre - UFCSPA
Participantes
50 alunos de medicina da UFCSPA do 2º ano / 4º semestre
Descrição
Em Abril e Maio de 2023 realizamos 2 aulas (2 horas cada) sobre saúde planetária, utilizando 5 casos clínicos publicados no Material Didático Pessoa e Clínica sob as Lentes da Saúde Planetária - Volume 2: casos Tainá (região Norte), Joana (Nordeste), Roberto (Centro-oeste), Selma (Sudeste) e Mara (Sul).
Os alunos foram convidados a verem uma aula gravada em seus domicílios, disponível em https://youtu.be/Qame7mpbXuw, e os primeiro e segundo encontros também contaram com um breve momento expositivo de conteúdo (20min). Após, a turma foi dividida em 5 grupos (10 alunos/grupo), sendo que cada grupo recebeu um caso clínico de uma região do país e escolheu uma fruta nativa daquela região para nomear o seu grupo (açaí, caju, café, pequi e bergamota), oportunizando relembrarmos a importância dos alimentos regionais na nutrição e preservação da biodiversidade local.
O caso Tainá e Joana foram aplicados pela primeira vez pelos professores. O caso Tainá (região Norte) em especial gerou debate sobre o garimpo e a saúde indígena, além de reflexões sobre a aproximação do ponto de não retorno da Amazônia e o que há para ser feito, concluindo que são necessários esforços em diversos setores, associado a escolhas individuais sobre como se deseja habitar esse planeta, não delegando toda a responsabilidade para o tecfix, que não será capaz sozinho de resolver os problemas da humanidade.
Também foi falado na discussão do caso Tainá sobre a questão do consumo de carne, que gera poluição do ar/desmatamento e que as pessoas que mais consomem carne são as que mais causam impacto, sendo que outras que necessitariam/poderiam se beneficiar nutricionalmente têm muito pouco acesso a ela e que sofrem mais com as mudanças ambientais e climáticas. A elitização do consumo de carne e concomitantemente os impactos ambientais que seu consumo gera especialmente na população com menor poder aquisitivo, são questões de injustiça ambiental/climática e inequidade. A carne bovina brasileira tem uma altíssima pegada de carbono, pois está associada à liberação de metano pelos animais (flatos) e mudança do uso do solo: desmatamento seguido de queimadas para dar lugar a pasto (ou lavouras geralmente de monoculturas de soja/milho) e extinção dos sumidouros de carbono (floresta que fixa carbono) devido ao desmatamento. A soja e o milho são usados no Brasil principalmente para produção de suínos e aves, e, no exterior, na produção intensiva de carne bovina. Esses grãos também são muito utilizados para a fabricação de ultraprocessados.
O caso Joana (Nordeste) ressaltou a inequidade ambiental, em especial o racismo ambiental relacionado à poluição do ar e insuficiência de áreas verdes urbanas e dificuldade de acesso a serviços de saúde e outros relacionado ao fato de Joana ser uma mulher trans. O grupo propôs que Joana se transportasse de bicicleta e estimular espaços verdes urbanos. Os professores também sugeriram o uso de máscara N95 se ela continuasse a aguardar muito tempo na parada de ônibus a fim de se proteger da poluição do ar que estava lhe gerando crises de asma e contribuindo para sua hipertensão, dentre outros.
O caso Selma (Sudeste) salientou também o racismo ambiental em uma mulher homossexual e obesa, que mora na favela do Rio de Janeiro, local com perigo para enchentes e deslizamentos. O grupo sugeriu a paciente realizar atividade física e os professores comentaram sobre a possibilidade de fomentar hortas comunitárias, sugerir o uso de máscara N95 e que a unidade de saúde pudesse estimular os conselhos de saúde locais e/ou a comunidade a exigir e pensar sobre um plano para catástrofes ambientais, para que não se seja pego de surpresa caso ocorra.
No caso Mara (Sul), os estudantes sugeriram uma mobilização da comunidade como ocorreu com a Mina Guaíba em que a mobilização social conseguiu barrar sua instalação, comentaram sobre o uso de epi para o trabalho de faxineira com produtos e sugeriram adequar o fogão a lenha para que tenha boa exaustão. Os professores lembraram sobre a liderança da saúde local, que pode documentar os casos de adoecimento relacionados à mina e levar argumentos científicos de saúde sobre seus riscos; também é importante validar o sentimento de luto ecológico/solastalgia que aparece no caso.
No caso Roberto (Centro-oeste) foi discutido questões de proteção à poluentes do ar em motoristas (fechar janelas e fluxo do ar em grandes rodovias e/ou instalar filtro de poluentes HEPA), utilizar EPIs ao aplicar agrotóxicos e consumir menos carne e ultraprocessados (gera cobenefício para a saúde e para o meio-ambiente). Os professores salientaram a evidente inequidade que aparece no caso: um agricultor não ter acesso a alimentos saudáveis porque na região prefere-se plantar monoculturas de soja em vez de agricultura familiar com alimentos diversificados. Talvez seja um caminho estimular que ele e a comunidade pudessem dar-se conta da relevância disto a fim de terem acesso mais próximo a melhores alimentos e impactar menos a saúde ambiental e humana. Essa questão de injustiça ambiental e climática deve ficar cada vez mais clara para a população e aos governos: as pessoas que mais sofrem e sofrerão com as alterações do clima não são as que enriquecem com a exploração ambiental. Além disso, o modo de produção do agronegócio Brasileiro está exaurindo os recursos naturais, sendo algo que não se sustentará. Fica claro no caso a sindemia de mudanças climáticas, obesidade e desnutrição.
Professores e pesquisadores participantes
Airton Tetelbom Stein (Médico de Família e Comunidade- MFC e Professor UFCSPA), Rafaela Brugalli Zandavalli (MFC e Mestranda Universidade Federal do Rio Grande do Sul-UFRGS) e Tatiana Souza de Camargo (Bióloga e Professora UFRGS).
Texto de Rafaela Zandavalli
Class for medical students at UFCSPA 2023 - Porto Alegre/RS - Brazil
Place
Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brazil.
Teaching Center
Federal University of Health Sciences of Porto Alegre - UFCSPA
Participants
50 UFCSPA 2nd year / 4th semester medical students
Description
In April and May 2023 we held 2 classes (2 hours each) about planetary health, using 5 clinical cases published in the Didactic Material Person and Clinic under the Lenses of Planetary Health - Volume 2: Tainá cases (North region), Joana (Northeast), Roberto (Midwest), Selma (Southeast) and Mara (South).
The students were invited to watch a recorded class at their homes, available at https://youtu.be/Qame7mpbXuw, and the first and second meetings also included a brief expository content moment (20min). After that, the class was divided into 5 groups (10 students/group), and each group received a clinical case from a region of the country and chose a fruit native to that region to name their group (açaí, cashew, coffee, pequi, and bergamot), giving us the opportunity to remember the importance of regional foods in nutrition and preservation of local biodiversity.
The Tainá and Joana cases were applied for the first time by the teachers. The Tainá case (North region) in particular generated debate about mining and indigenous health, as well as reflections about the approaching point of no return in the Amazon and what needs to be done, concluding that efforts are needed in various sectors, associated with individual choices about how one wants to inhabit this planet, not delegating all the responsibility to tecfix, which will not be able to solve humanity's problems alone.
It was also talked in the discussion of the Tainá case about the issue of meat consumption, which generates air pollution/deforestation and that the people who consume the most meat are the ones who cause the most impact, while others who need/could benefit nutritionally have very little access to it and suffer the most from environmental and climate change. The elitization of meat consumption and concomitantly the environmental impacts that its consumption generates especially in the population with lower purchasing power, are issues of environmental/climate injustice and inequity. Brazilian beef has a very high carbon footprint, because it is associated with the release of methane by the animals (flabs) and the change in land use: deforestation followed by burning to make way for pasture (or crops, usually soybean/corn monocultures) and extinction of carbon sinks (forest that fixes carbon) due to deforestation. Soy and corn are used in Brazil mainly for the production of pigs and poultry, and abroad for the intensive production of beef. These grains are also widely used for the manufacture of ultra-processed products.
The Joana case (Northeast) highlighted environmental inequity, in particular environmental racism related to air pollution and insufficient urban green areas and difficulty accessing health and other services related to the fact that Joana is a trans woman. The group proposed that Joana transport herself by bicycle and encourage urban green spaces. The teachers also suggested wearing an N95 mask if she continued to wait too long at the bus stop in order to protect herself from the air pollution that was giving her asthma attacks and contributing to her hypertension, among others.
The Selma case (Southeast) also highlighted environmental racism in a homosexual and obese woman who lives in a favela in Rio de Janeiro, a place with danger of floods and landslides. The group suggested the patient perform physical activity, and the teachers commented on the possibility of fostering community gardens, suggesting the use of N95 masks, and that the health unit could stimulate the local health councils and/or the community to demand and think about a plan for environmental disasters, so that one is not caught by surprise should one occur.
In the Mara case (South), the students suggested a community mobilization as occurred with the Guaíba Mine, in which social mobilization was able to stop its installation, they commented on the use of epi for the cleaners' work with products, and suggested adapting the wood stove so that it has good exhaustion. The teachers reminded about the local health leadership, who can document the cases of mine-related illnesses and bring scientific health arguments about its risks; it is also important to validate the feeling of ecological mourning/solastalgia that appears in the case.
In the Roberto case (Midwest) it was discussed issues of protecting air pollutants in drivers (closing windows and airflow on major highways and/or installing HEPA pollutant filter), using PPE when applying pesticides, and consuming less meat and ultra-processed food (generates co-benefits for health and the environment). The teachers pointed out the obvious inequity that appears in the case: a farmer not having access to healthy food because in the region they prefer to plant soybean monocultures instead of family farming with diversified food. Perhaps it is a way to encourage him and the community to realize the relevance of this in order to have closer access to better food and less impact on environmental and human health. This issue of environmental and climate injustice must become increasingly clear to the population and governments: the people who suffer and will suffer the most from climate change are not the ones who get rich from environmental exploitation. Furthermore, the Brazilian agribusiness mode of production is depleting natural resources, and is something that will not be sustained. It is clear in this case the syndemic of climate change, obesity, and malnutrition.
Participating professors and researchers
Airton Tetelbom Stein (Family and Community Physician- FCM and Professor UFCSPA), Rafaela Brugalli Zandavalli (FCM and Master's student Federal University of Rio Grande do Sul-UFRGS) and Tatiana Souza de Camargo (Biologist and Professor UFRGS).
Text by Rafaela Zandavalli


